quinta-feira, 5 de julho de 2018

Revolução e Socialismo (Hobsbawm, A era das revoluções, Cap. 6 – “As revoluções”)


Fichamento de Rafael Arosa Prol Otero 
Hobsbawn. A Era das Revoluções. 1789 – 1848. Editora Paz e Terra. 1977
CAP 6. AS REVOLUÇÕES.
I
Poucas vezes a incapacidade dos governos de conter as revoluções foi tão expressa quanto pós 1815. Mesmo com as tentativas na Europa de sufocar revoluções influenciadas pelas Rev. Francesa, o revolucionarismo foi endemico. Entre 1815 e 1848, produziram-se 3 grandes ondas revolucionárias no mundo ociental:
• 1820-24: Revoluções na Espanha (1820), influenciaram decisivamente os movimentos separatistas latinoamericanos que já vinham se sublevando desde as campanhas napoleônicas na Espanha e Portugal.
• 1829-1834: A onda revolucionária de 1830. Marca definitivamente a derrota dos aristocratas pelo poder burguês na Europa Ocidental, cuja aristocracia governaria por 50 anos através de democracias limitadas, enfrentando agitações internas de movimentos trabalhistas e de revoltas pequenoburguesas motivadas pelas mudanças políticas oriundas do desenvolvimento econômico e social. 1830 marca um ano proeminente para a industrialização e urbanização da Europa e EUA, para as migrações humanas, história das artes e ideologia.
• 1848: Revoluções na França, na Itália, Na Alemanha e Suíça. “Não houve nada tão próximo de uma revolução mundial […] o que em 1789 fora o levante de uma só nação era agora, assim parecia,‘a primavera dos povos‘ de todo um continente”.

II
Os diferentes momentos da Rev. Francesa legou um conjunto de modelos de sublevação política que serviram para organizar as rebeliões a partir das eras pós-napoleônicas, surgidos do descontentamento com os sistemas políticos europeus, culminando em diferentes momentos de instabilidade e organização revolucionária devido as diferenças em condições sociais e políticas das nações, acentuadas pós 1830. 3 principais tendências.
• Liberal moderado (classe média superior e aristocracia liberal). RF 1789-91. Ideal político da monarquia constitucional oligárquica. Instalados pós 1830 na França, UK e Bélgica.
• democrata radical (classe média inferior, pequenos industriais, intelectuais). RF 1792-93. república democrática e estado de bem-estar social – Constituição jacobina
• Socialista (trabalhadores pobres). RF Jacobinos extremados, primeiro comunistas e Conspiração dos Iguais de Babeuf.

III
Composição e organização: revolucionários x reacionários até 1831. A reação estava organizada principalmente na união dos príncipes absolutistas sob a liderança do czar, que viam toda a oposição como um bloco indivisível de subversivos. Já os movimentos revolucionários europeus na época possuíam pouco em comum além do ódio pelas tradicionais instituições hegemônicas: Igreja, Monarquia e Aristocracia. Entre 1815-48 houve na verdade o processo de desintegração dessa frente unida.
Em grande parte, a oposição política era formada por pequenos grupos progressistas da elite culta e rica, que enxergava para si o papel de emancipadores, libertadores da massa de trabalhadores explorados, por sua vez vista como inerte e ignorante -; os progressistas dividiam-se entre os reformadores da classe média (Ex. Stuart Mill) e outros mais radicais (dos quais surgiam na Inglaterra os primeiros oradores conectados organicamente). A organização revolucionária encontrava certa unidade nas irmandades secretas disperas por toda a Europa, cuja tradição derivava da maçonaria, tinham participação importante de militares (muitos liberais) e grupo mais expressivo foram os carbonari que produziram expressivas revoltas entre 1820-21 e se expressou também na Restauração.
As tensões entre moderados e radicais no momento em que pesava o ônus da derrota ou mesmo a divisão dos poderes após a tomada do poder dividiram em dois a Esquerda europeia e os movimentos passaram a ganhar mais caráter nacional. O liberalismo moderado triunfou na França, UK e Bélgica; as vitórias parciais na península ibérica e Suíça produziu um equilíbrio de forças com os católicos e anti-liberais, o que permitiu a alternância de poderes.

IV
As massas populares nos centros industriais se organizavam e se politizavam de maneira cada vez mais autônoma ao mesmo passo que a situação de vida no campo e nas cidades ficavam mais dramáticas – a pesar de só neste último haver de fato condições para mobilização. Para tal foram importantes manifestações como o teatro popular de Johann Nestroy e as teses de Owen do cooperativismo inspiraram a formação dos Sindicatos Gerais na Inglaterra. Já na França o movimento proletário não alcançaria sucesso até 1848, porém dali surgiam ramos do socialismo utópico (Saint-Simon) e, a partir de 1830, dos descendentes do jacobinismo – Auguste Blanqui -, mas a fraqueza das bases populares na França mantinha os movimentos revolucionários apartados na elite.
Neste passo, mobilizar as camadas populares era um desafio e um risco para as elites revolucionárias na Europa Ocidental. Onde os liberiais alcançavam o poder, sempre com ajuda dos radicais, logo surgiam hesitações, traições e perseguições contra as massas populares radicalizadas; Os moderados apostavam no reformismo. As decepções entre os revolucionários após 1831, despedaçou o internacionalismo unificado em torno França, na esperança que dali sairia a fagulha que incendiaria a Europa, e deu lugar a diferentes movimentos nacionalistas independentes de radicais, republicanos e proletários.

V
Já nas nações menos industrializados – Espanha, Hungria, Polonia, Ucrania, Impérios Russo, Turco e Austríaco -, as camadas populares eram formadas pelo campesinato, ainda ignorantes e passivos politicamente e muitas vezes vivendo em regimes servis. Esta situação dava vantagem para os poderes legitimadores da Igreja e da Aristocracia de guiá-los. A esquerda se dividia nestes países entre a extrema esquerda e os democratas – que apostavam em geral na conciliação com os proprietários de terra e viam a conveniência de aliança com o campesionato nas situações em que se combatiam o campesinato.
A extrema esquerda nesses países - abertamente revolucionária, adepta da crítica social e próximos dos babovista e blanquistas – teve muitas dificuldades de obter apoio de setores amplos e de aproximar-se politicamente do campesinato. As revoluções de 1848 nesses países foram pouco expressivas.

VI
As condições sócio-políticas entre 1830-48 já estão dadas: as lutas revolucionárias nacionalizaram-se e apesar da politização das massas populares nos centros mais desenvolvidos, a capacidade de comando vinha em grande parte das classes médias intelectuais em que os herdeiros das sociedades carbonários tentavam constituir organizações legais – naturalmente expandindo-se assim entre as classes mais baixas.
Entretanto, as movimentações políticas dissidentes encontravam barreiras na criminalização e na inexistência de veículos de comunicação de massa (fora da Inglaterra e EUA).
No plano das reivindicações políticas, as revoltas neste período constituíam-se ainda na aliança de burgueses e socialistas em prol da democracia e contra a monarquia. Somente na Inglaterra os conflitos entre burguesia e os movimentos proletários já eram mais latentes.
A idéia de como se daria a revolução era bem difundida entre a esquerda europeia baseado no Jacobinismo da Rev. Francesa e na perspectiva da fraternidade internacional entre os povos. Ocorreria a tomada da capital e derrubada do governo através do levante armado e de barricadas. Proclamaria-se a republica e um governo provisório, seriam feitas eleições democráticas para uma Assembléia Constituinte. O internacionalismo decrescia entre os nacionalista a medida que as nações tornavam-se independentes, mas crescia entre os movimentos revolucionários de orientação proletária.
A fraternidade internacionalista também nutria-se dos exílios políticos de revolucionários e apolíticos de proletários reassentados. Principalmente Paris e Viena tornaram-se ambientes de aprendizado internacional para elites intelectuais progressistas da Rússia, Oriente Médio, Américas, e formação dos revolucionários que preparam a revolução de 1848. Em certo ponto, os exilados transformaram-se "de fato em corpos internacionais de militância revolucionária". Todo levante libertário entre 1831 e 1871 teve participação de poloneses e – em menor volume – italiano.


Um comentário:

  1. Encontrei aqui vários livros do Hobsbawn pdf em Portugues. Inclusive 'Como mudar o mundo'

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