domingo, 15 de julho de 2018

Partidos, Massa e revolução: Marx depois de 1848

Para a aula do dia 20/07, sobre o pensamento de Marx após 1848, discutiremos o texto chamado "Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas" de 1850.
O texto é comentado por Michael Löwy no capítulo 4 do seu livro sobre "A teoria da revolução no Jovem Marx" e também está disponível na coletânea "As armas da crítica" da editora Boitempo.

Resenha do texto “Mensagem da Direção Central à Liga dos Comunistas” de Karl Marx por Giovanna Toledo

A mensagem escrita por Karl Marx tem como objetivo apresentar detalhadamente qual deve ser o posicionamento dos operários e principalmente da Liga após as revoluções de 1848 para que esses não fiquem sob o domínio dos pequenos burgueses. 
Marx inicia o texto demonstrando que dois anos que se passaram (1848-1949) ao longo das conturbadas revoluções que fracassaram, houve uma afirmação significativa da Liga por dois motivos: ocorreu o cumprimento das expectativas que se fizeram presentes no Manifesto Comunista de uma tomada de consciência por parte dos operários e, além disso, as concepções das condições sociais que já estavam em pauta entre os membros de grupos mais restritos, passaram a se fazer presentes em todo o povo. 
Entretanto, embora tais melhorias tenham ocorrido, concomitantemente a isso houve um enfraquecimento da Liga que também é apontado pelo autor: com a chegada de tais concepções na esfera pública, passou-se a acreditar que não havia mais a necessidade de grupos secretos, além do mais, as relações com a Direção Central afrouxaram-se trazendo certa desorganização.
Se de um lado a união dos operários estavam enfraquecendo e passando por um período de desorganização, por outro, o partido democrático representado pela pequena burguesia estava cada vez mais organizado na Alemanha.  Esse contexto foi problemática do ponto de vista de Marx, pois em algumas localidades tinham pequenos grupos de operários organizados em prol de pautas locais, e tais grupos acabavam de um modo geral ficando sob a dominação dos pequenos burgueses e consequentemente perdiam sua autonomia.
Ao se deparar com tal situação, a Direção Central percebeu a necessidade da retomada da autonomia operária e para conseguir tal objetivo um emissário -  Joseph Moll - é enviado para tentar reorganizar e fortalecer a liga. O plano não sai especificamente como esperado pois ocorrem as revoluções em Maio de 1948 e Joseph vai à guerra de fato com as armas. Em 29 de Junho ele é morto. Com tal acontecimento, a Liga perde um de seus principais e mais antigos membros. 
Com a derrota por parte dos revolucionários tanto na França quanto na Alemanha, os membros da Direção Central marcam um encontro em Londres em 1949 e tem sua frente com novas forças revolucionárias e uma busca por renovação das energias.
Marx aponta que sempre foi claro que os burgueses liberais assim que conquistassem o poder o usariam contra os operários, essa visão se consolida rapidamente, quando os burgueses obtém a vitória e colocam novamente os operários na posição de oprimido. Essa conquista da burguesia parecia ser consolidada, pois a relação com o partido feudal fez com que os burgueses não tivessem a necessidade de tomar atos violentos e odiosos para se estabelecer, visto que a contra-revolução feudal já os tinha realizado. Porém Marx aponta que a reação dos revolucionários operários não será pacífica e uma nova revolução há de acontecer.
Até este momento o texto tem um viés mais contextualizador que busca demonstrar quais foram os acontecimentos que haviam levado até a situação atual - do momento do texto - mas a partir desse momento ele começa a tratar de quais serão os passos a serem seguidos para uma revolução que está por vir. 
Sendo assim, a primeira coisa a ser analisada é que o papel anteriormente cumprido pelos burgueses liberais, agora seria cumprido pelos pequenos burgueses e o partido democrata do qual esses fazem parte consiste em três “sub-grupos”: aqueles que querem o fim do absolutismo e do feudalismo, aqueles que querem a fundação de um Estado Federal e aqueles que tem como ideal uma uma República Federativa Alemã. 
E embora tais grupos auto intitulem-se como vermelhos e socialistas, somente querem apoiar-se nos proletários, mas as ações não foram modificadas de fato. Em outras palavras, como colocado pelo próprio Marx ao longo do texto, os burgueses não querem beneficiar o proletariado, mas sim, tornar sua situação mais suportável com esmolas para conseguir a força revolucionária. O que os burgueses buscam é fazer os proletários acreditaram que com as condições míseras oferecidas por serem um pouco melhores do que as anteriores, colocam fim na necessidade de revolução.
Por isso, é dever da Liga e dos operários em si tornar a revolução constante até que o poder do Estado pertence ao operário. As reivindicações burguesas não devem ser aceitas, não se pode concordar com a propriedade privada, tem de pedir seu aniquilamento. Não se deve acreditar na proposta de aperfeiçoar a sociedade, é necessário criar uma nova.
Sabendo que a democracia pequeno burguesa vai ter inevitavelmente influencia no curso do desenvolvimento da revolução, Marx aponta qual deve ser o posicionamento da liga e dos proletários em 3 momentos distintos: enquanto os pequenos burgueses ainda forem oprimidos, na próxima luta revolucionária e após essa luta.
No primeiro momento sabe-se que os burgueses buscarão uma união por encontrarem-se também oprimidos, o que se deve fazer é recusar a conciliação proposta pelos burgueses, pois a aceitação causaria a perda da autonomia por parte dos operários. Além disso, é fundamental que a Liga cumpra o papel de de realizar uma organização autônoma no próprio partido operário proporcionando que estes tomem decisão longe da influência burguesa. O filósofo também indica que no caso de haver um inimigo em comum - para os burgueses e operários - a ligação surgirá por si só, mas é essencial que nesse caso os operários afirmem sua posição não pacifista e mantenham a efervescência da revolução mesmo após uma possível vitória e também que se tenha desconfiança para com os burgueses desde o princípio
Já no segundo momento, os operários têm de armar-se e organizar-se. Nesse momento precisa ocorrer a liquidação de qualquer influência burguesa. A liga tem de se fazer presente para possibilitar tais necessidades. 
Por fim, num terceiro momento já se sabe que assim que o poder se consolidar, terá início uma luta contra os operários, por conta disso eles precisam estar organizados de maneira autônoma - como já foi pontuado. De modo mais prático, Marx aponta que assim que o governo cair é preciso que a Direção Central vá até a Alemanha e realizar um congresso com as propostas necessárias. Deve ocorrer uma união entre o clube dos operários para que se fortifiquem. Além disso, o fato principal é que tendo o governo sido derrubado, haverá uma eleição para escolher a nova Representação Nacional, os proletários devem cuidar para que não sejam excluídos em hipótese alguma de tal momento, garantindo que sejam propostos candidatos operários e não somente os burgueses.
Marx aponta que a primeira questão de desacordo entre os operários e os burgueses será a supressão do feudalismo. Por parte dos pequenos burgueses haverá a proposição de que os camponeses devem receber as terras feudais como propriedades livres. Isso, no entanto, criaria uma classe camponesa pequeno burguesa e traria os mesmos problemas anteriores de empobrecimento. É essencial que os operários se posicionem de maneira contrária a tal plano exijam o confiscamento da propriedade feudal. 
Além do que já foi demonstrado anteriormente, é função dos operários também: obrigar os democratas a concentrar as forças produtivas na mão do estado e também transformar as propostas dos democratas em ataques diretos à propriedade privada que deve ser aniquilada. Exemplo disso, nas palavras do próprio autor: 
por exemplo, se os pequeno-burgueses propuserem comprar os caminhos-de-ferro e as fábricas, têm os operários de exigir que esses caminhos-de-ferro e fábricas, como propriedade dos reacionários, sejam confiscados simplesmente e sem indemnização pelo Estado.
(ENGELS & MARX. 1982)
Em suma, Marx demonstra que já que não se pode atingir a vitória sem passar por um processo penoso e com obstáculos e oposição como este, é importante que se conheça o trajeto correto a ser seguido, tal qual ele demonstra nesse texto. Porém embora os burgueses tenham um “papel” nesse projeto, não se pode perder a autonomia para eles, pois o papel que eles cumprem é justamente de oposição aos proletários. 




2 comentários:

  1. Se for do interesse dos colegas, segue o link do livro "As armas da crítica" disponível em pdf

    http://politicaedireito.org/br/wp-content/uploads/2017/02/As-Armas-da-Critica-Emir-Sader-1.pdf

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