Nesse texto de 1798, nos interessa sobretudo a discussão kantiana sobre a revolução francesa presente na Segunda Seção "O conflito da Faculdade Filosófica com a Faculdade de Direito", trecho estruturado em torno da seguinte questão: "estará o gênero humano em constante progresso para o melhor?
Immanel
Kant - O Conflito das Faculdades
(1798)
SEGUNDA
SECÇÃO: O conflito da Faculdade filosófica com a Faculdade de Direito
1.
Que se quer aqui saber?
Procura-se um fragmento da história moral da humanidade
que seja pré-anunciadora e divinatória de um progresso constante para o melhor
2.
Como é que tal se pode saber?
Descrição a priori
de eventos que devem acontecer. Isso só é possível porque o próprio advinho faz e organiza os eventos que
previamente anuncia.
3.
Divisão do conceito do que se pretende conhecer previamente como futuro
“O gênero humano está ou em incessante regressão para o
pior, ou em constante progressão para o melhor na sua determinação moral, ou em
eterna detença no estádio atual do seu valor moral entre os diversos membros da
criação”
a.
Da concepção terrorista da história dos homens
b.
Da concepção eudemonista da história dos homens
c.
Da hipótese do abderitismo do género humano sobre a predeterminação da sua
história
4.
Pela experiência não é possível resolver imediatamente o problema do progresso
Não é possível prever a ação de seres livres: “Lidamos,
de facto, com seres que agem livremente, aos quais se pode, porventura, ditar
de antemão o que devem fazer, mas não predizer o que farão e que, do sentimento
dos males que a si próprios infligiram, sabem tirar, quando tal piora, um móbil
reforçado para fazer ainda melhor do que se encontrava antes daquela situação”.
5.
Importa, todavia, associar a qualquer experiência a história profética do gênero
humano
“Importa
indagar um acontecimento que aponte, de modo indeterminado quanto ao tempo,
para a existência de semelhante causa e também para o acto da sua causalidade
no género humano, e que permita inferir a progressão para o melhor, como
consequência inelutável, inferência que, em seguida, se poderia estender à
história do tempo passado (de que se esteve sempre em progresso); porém, de
maneira que aquele acontecimento não se deva olhar como sua causa, mas somente
como indicativo, como sinal histórico (signum
rememorativum, demonstrativum, prognosticon), e poderia, por isso,
demonstrar a tendência do gênero humano, olhada no seu todo, i.e., não segundo
os indivíduos (pois tal proporcionaria uma enumeração e uma contagem
intermináveis), mas quanto ao modo como na Terra se encontram divididos em
povos e Estados.
6.
De um acontecimento do nosso tempo que prova esta tendência moral do género
humano
“A revolução de um povo espiritual, que vimos ter lugar
nos nossos dias, pode ter êxito ou fracassar; pode estar repleta de miséria e
de atrocidades de tal modo que um homem bem pensante, se pudesse esperar, empreendendo-a
uma segunda vez, levá-la a cabo com êxito, jamais se resolveria, no entanto, a
realizar o experimento com semelhantes custos – mas esta revolução, afirmo,
depara nos ânimos de todos os espectadores (que não se encontram enredados
neste jogo), com uma participação segundo o desejo, na fronteira do entusiasmo,
e cuja manifestação estava, inclusive, ligada ao perigo, que não pode, pois,
ter nenhuma outra causa a não ser uma disposição moral no género humano.
A
causa moral aqui interveniente é dupla: primeiro, é a do direito de que um povo
não deve ser impedido por outros poderes de a si proporcionar uma constituição
civil, como ela se lhe afigurar boa; em segundo lugar, a do fim (que é ao mesmo
tempo dever), de que só é em si legítima e moralmente boa a constituição de um
povo que, por sua natureza, é capaz de evitar, quanto a princípios, a guerra
ofensiva – tal não pode ser nenhuma outra a não ser a constituição republicana,
pelo menos segundo a ideia, portanto apta para ingressar na condição graças à
qual é afastada a guerra (fonte de todos os males e corrupção dos costumes), e
assim se assegura negativamente ao gênero humano em toda a sua fragilidade, o
progresso para o melhor, pelo menos, não ser perturbado na progressão.”
7.
História profética da humanidade
“Afirmo agora que posso predizer ao género humano, mesmo
sem o espírito de um visionário, segundo os aspectos e os augúrios dos nossos
dias, a consecução deste fim e, ao mesmo tempo, a sua progressão para o melhor
e não mais de todo regressiva”.
8.
Da dificuldade das máximas respeitantes à progressão para o melhor universal
quanto à sua publicidade
A ilustração do povo cabe aos “professores livres, i. e.,
os filósofos” que nada mais exigem que publicidade, pois “a interdição da
publicidade impede o progreso de um povo para o melhor, mesmo no que concerne à
menor das suas exigências, a saber, o seu simples direito natural”.
Passagem importante para a filosofia política de Kant: “A
ideia de uma constituição em consonância com o direito natural dos homens, a
saber, que os que obedecem à lei devem ao mesmo tempo, na sua união, ser
legisladores, está subjacente a todas as formas políticas, e o Estado que,
concebido em conformidade com ele, graças a puros conceitos racionais, se chama
um ideal platónico (respublica noumenon), não é uma quimera vazia, mas a norma
eterna para toda a constituição civil em geral, e afasta toda a guerra. Uma
sociedade civil organizada em conformidade com ela é a sua representação, segundo
leis de liberdade, mediante um exemplo na experiência (respublica phaenomenon)
e só pode conseguir-se penosamente após múltiplas hostilidades e guerras; mas a
sua constituição, uma vez adquirida em grande escala, qualifica-se como a
melhor entre todas para manter afastada a guerra, destruidora de todo o bem; é,
portanto, um dever ingressar nela; mas provisoriamente (porque isso não
ocorrerá tão cedo) é dever dos monarcas, embora reinem autocraticamente,
governar, no entanto, de modo republicano (não democrático), i.e., tratar o
povo segundo princípios conformes ao espírito das leis de liberdade (como um
povo de madura razão a si mesmo as prescreveria), se bem que quanto à letra não
seja consultado acerca da sua acquiescência”.
9.
Que lucro trará ao género humano o progresso para o melhor?
“Não uma quantidade sempre crescente da moralidade na
disposição de ânimo, mas um aumento dos produtos da sua legalidade em acções
conformes ao dever, sejam quais forem os motivos que as ocasionem; i.e., nos
actos bons dos homens, que se tornarão sempre mais numerosos e melhores,
portanto nos fenómenos da condição moral do género humano, é que se poderá
situar apenas o ganho (o resultado) da sua refundição em vista do melhor”.
10.
Em que ordem apenas se pode esperar o progresso para o melhor?
“para tal seria, decerto, necessário que o Estado, de
tempos a tempos, se reformasse a si mesmo e, tentando a evolução em vez da
revolução, avançasse de modo permanente para o melhor”.
Conclusão
“As consequências dolorosas da guerra actual, porém,
podem forçar o adivinho político a confessar uma orientação iminente do género
humano para o melhor, que já agora está em perspectiva”.
- Uma orientação racional e garantida
constitucionalmente rumo à paz é a
condição de possibilidade do progresso do gênero humano.
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